É hoje um dado inquestionável que a
gastronomia de um país é um tesouro valioso tal como as artes e os ofícios, a
etnografia, a língua e a literatura. Como dizia (Fialho de Almeida, 1965) “transmite-se
por tradição…Ninguém a inventou e inventaram-na todos”.
Faz todo o sentido pôr em relevo
esta expressão cultural, enriquecedora da nossa tradição. É uma maneira de
chamar a atenção para um património imaterial original, que importa preservar e
reabilitar pois que muito facilmente se perde e se adultera.
Preservar receitas é preservar
tradições e culturas, a caldeirada, as cataplanas de peixe, o arroz de peixe, o
bife de atum, o arroz de lingueirão, os carapaus alimados, e outras tantas
receitas, seriam só por si suficientes para considerar a gastronomia algarvia
como um património único.
Mas há tantas outras receitas e
formas de cozinhar menos conhecidas e que precisam de salvaguarda e divulgação
urgente.
No caso específico da cozinha
algarvia, onde se inclui a do Concelho de Loulé, a sua riqueza reside na
especificidade e na diversidade dos produtos que utiliza, bem como na forma
original como absorve sabores e técnicas das ementas dos povos que ali viveram,
com especial relevância para os árabes.
A gastronomia algarvia é o resultado
do acumular de sabores de séculos de existência, misturado, afinado e refinado
com os gostos particulares daqueles que cozinham.
A gastronomia é um conceito que associa muito
mais do que a simples ingestão de alimentos: é toda a variedade de processos de
confecção, e nesse sentido é técnica, é toda a diversidade de elementos
decorativos que estão incluídos na apresentação de um prato, e nesse sentido é
estética; é toda uma vivência social em volta da confecção e da degustação, e
nesse sentido é lazer.
A Gastronomia é também um imenso
mundo de elementos identitários de um povo, de uma região, de um país, e nesse
sentido é um pilar essencial da sua diversidade cultural.
Na região do Algarve, encontramos
uma das mais belas sinfonias da gastronomia Portuguesa que foi sendo
amadurecida ao longo dos tempos pelo encontro das culturas marítima e serrana,
pelo encontro dos povos antigos, relação estabelecida pelos portugueses com o
mundo e pelo encontro das religiões orientais com a muçulmana, a judaica e a
cristã.
Podemos olhar para o período dos
Descobrimentos como um momento de ruptura da situação tradicional da
gastronomia portuguesa, uma vez que alterou todos os parâmetros em questão. Contudo
a gastronomia algarvia tem vindo a desenvolver-se desde há séculos que
caracterizaram influências muito diversas.
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